A reserva ovárica é um indicador que, explicando de forma rudimentar, tem em conta a quantidade e qualidade dos ovócitos – as células germinativas femininas produzidas pelos ovários e que estão na fase inicial da divisão celular – existentes na mulher. Para este caso, há que ter em conta a quantidade de folículos ováricos disponíveis para a fertilização: já agora, fique a saber que os folículos são uma espécie de casulo, situado nos ovários, onde ocorre a maturação dos ovócitos, sendo estes depois libertados para poder fecundar.

Qual a importância em saber o estado da reserva ovárica? Basicamente, trata-se de um dado clínico fundamental para conhecer o potencial reprodutivo da mulher, sendo que em algumas mulheres a reserva pode diminuir precocemente, em vez de baixar em idades mais avançadas.

E como se descobre? Através de análises ao sangue é possível medir muita coisa, nomeadamente os níveis existentes da hormona anti-Mülleriana (AMH) e/ou da hormona folículo-estimulante (a FSH), importantes para avaliar a reserva ovárica. Mas também se pode fazer uma ecografia para contar o número de folículos antrais, ou seja, de folículos com ovócitos em estado mais maduro.

Em que se baseou o estudo?

Depois das apresentações, vamos então estudo publicado na Fertility Sterility. A investigação teve como base uma análise retrospetiva de 5.330 ciclos de FIV realizados em 2012 e 2013, junto de mulheres com uma reserva ovárica muito baixa e em várias clínicas dos Estados Unidos. Analisou-se o valor de AMH em cada paciente e de que modo um valor baixo desta hormona influiu no resultado do tratamento.

Valores entre 1 e 3,5 nanogramas por mililitro (ng/ml) são considerados normais, refletindo uma boa reserva ovárica. Acima de 3,5 ng/ml estão as mulheres com reserva ovárica muito alta, como as portadoras do síndrome do ovário poliquístico.

Por outro lado, valores de AMH abaixo de 1 ng/ml indicam uma reserva ovárica baixa, com risco de baixa produção de óvulos na fase de estimulação. Neste estudo, o grupo avaliado foi de pacientes com valores muito baixos de AMH, praticamente no limite de deteção do exame: 0,16 ng/ml.

Um dos resultados surpreendeu os cientistas

Estas pacientes, com AMH igual ou abaixo de 0,16, foram submetidas a um procedimento de fertilização in vitro. A idade média deste grupo era de 39 anos.

No fim, cerca de 54% dos ciclos iniciados de FIV foram cancelados, ou seja, não foi realizada uma transferência embrionária. Este cancelamento deu-se devido à ausência de uma resposta ovárica, à ausência de óvulos na captação ou à ausência de formação de embriões. O número acaba por ser expressivo (estamos a falar de mais da metade dos ciclos), mas já era esperado, refletindo uma situação ovárica de muito baixa resposta e com uma capacidade de amadurecimento dos óvulos igualmente muito baixa.

Porém, no subgrupo de mulheres que tiveram embriões para transferência houve uma surpresa positiva, em relação às suas probabilidades de gravidez. A taxa de gravidez clínica foi de 28% por transferência, um número bastante razoável tendo em conta a média de idade e o fato de serem pacientes com uma reserva ovárica baixíssima.

Outra descoberta, desta vez com embriões descongelados

Mas uma surpresa nunca vem só. A investigação também analisou, separadamente, os dados relativos às hipóteses de gravidez das mulheres com AMH muito baixo e que receberam embriões que estiveram congelados

Neste caso, a percentagem de mulheres estudadas foi pequeno (apenas 1,5% de todas as mulheres analisadas), já que na grande maioria das vezes não houve embriões suficientes para transferir e ainda congelar.

Mesmo assim, acabou por surgir outro dado positivo e interessante: as hipóteses de gravidez clínica por transferência de um embrião descongelado foi de 41%. Um número bastante significativo, tendo em conta as características clínicas deste grupo de pacientes.

Afinal, o que podemos concluir a partir de tudo isto?

O estudo acaba por ser relevante devido à grande amostra de pacientes (mais de cinco mil), acabando por compensar, um pouco, o facto de ser um estudo que olha para dados obtidos no passado, e não durante e para a investigação – é um estudo retrospetivo, portanto.

Em suma, quais as conclusões importantes que podemos tirar da análise aos resultados? Primeiro, que a análise ao nível de AMH tem de ser cada vez mais utilizada como valor preditor de reserva ovárica, por existir uma excelente correlação com a resposta à estimulação, o número de óvulos obtidos e o risco de cancelamento.

Mais. Mesmo nas mulheres com AMH e reserva ovárica muito baixa – e caso haja sucesso em conseguir óvulos e a formação de embriões, mesmo que poucos – as chances de gravidez são bastante razoáveis.

Outra conclusão é que o congelamento (a vitrificação) de embriões, para transferência posterior neste grupo de pacientes, oferece excelentes resultados. Isto significa que, mesmo em mulheres com poucos óvulos e embriões formados, não há motivos para preocupação caso haja necessidade de congelar os embriões. Além disso, os resultados do estudo mostraram que as hipóteses de gravidez foram maiores com embriões congelados (e depois descongelados) do que com embriões frescos.

Finalmente, concluiu-se que não há um limite inferior, em relação aos níveis de AMH, que possa determinar que a probabilidade de sucesso da FIV seja virtualmente nula. Com níveis de AMH muito baixos, o risco de cancelamento (não ter embriões formados) é maior, mas existindo a formação de embriões as hipóteses de sucesso são boas, pese embora a diminuta reserva ovárica.

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