Viva a cabo-verdiana na diáspora: Assunção Fernandes. Uma líder nata

Eleita Personalidade do Ano 2016 pela Confederação do Desporto de Portugal, esta líder nata e trabalhadora incansável é hoje mestre em Ação Social e, através do seu trabalho na Câmara Municipal de Oeiras, tenta incutir nos mais jovens a confiança de que as suas vidas podem ser melhores do que a dos seus pais e avós.
créditos: Adalberto Cardoso/Revista Sempre Viva

Assunção Fernandes chegou a Portugal com o 9º ano de escolaridade, um filho pelas mãos e outro na barriga, para reencontrar o marido. Sua morada: Pedreira dos Húngaros, o maior bairro da lata de Lisboa dos anos 1990, tido como um antro de pobreza e miséria humana. Mas esta menina da Calabaceira (Praia) não se deixou vencer pela fatalidade, e, contra todas as expetativas, levou a sua equipa de andebol feminino, Assomada, às competições europeias.´

A sua história é parecida com a de José Mourinho, que foi treinador sem ter sido jogador, ou fez o percurso habitual: antes de ser treinadora foi atleta?

Fui praticante de andebol em Cabo Verde, no âmbito do desporto escolar, com 11/ 12 anos, na altura em que foi construído a escola de Ciclo Preparatório da Calabaceira, onde morava com a minha família. Até terminar o 9º ano dediquei-me sempre ao andebol. De outra forma não seria possível, porque os meus pais quase não me deixavam sair de casa.

Ir para a escola era então para si um momento de alegria e liberdade?

Sem dúvida. Gostava imenso de praticar andebol, futebol e atletismo também, talvez inspirada pelo meu irmão, Elias Fernandes.

Quando e como se deu a mudança para Portugal?

Aos 21 anos casei-me. Logo a seguir, o meu marido mudou-se para Portugal e mandou buscar a mim e ao nosso filho, ainda bebé.

Como viveu essa mudança?

Por um lado, foi relativamente fácil porque o meu marido já lá estava. Por outro, muito difícil. Chorava todos os dias com saudades da minha terra, da minha mãe. Felizmente, adaptei-me rapidamente, dei a volta por cima.

Em Portugal, já casada e mãe, conseguiu retomar a sua carreira de atleta de andebol?

Não, mas tornei-me treinadora da equipa de andebol que implementei no bairro da Pedreira dos Húngaros, formada apenas por filhas de emigrantes caboverdianos, ao mesmo tempo que fazia formações através da Federação Portuguesa da modalidade.

As meninas que convidou para fazer parte da sua equipa já jogavam andebol?

Não, nem tinha noção do que era o andebol. A única ocupação que tinham na altura era a escola e a catequese. Chamou a minha atenção haver no bairro tantas crianças na rua, sem fazer nada. Lembrei-me que, afinal, sabia jogar andebol e decidi ajudar, criando uma equipa. Não tínhamos campo, nem bolas, nada! Só aquelas meninas de 10/11 anos. Perguntei-lhe se gostariam de aprender andebol e, passados cinco minutos, já tinha 25 meninas ao pé de mim, prontinhas para ajudar-me a arrancar com o projeto.

Se não tinham nem campo, nem bolas, como conseguiam treinar?

Fui à Câmara Municipal de Oeiras procurar apoios e, então, fui informada de que iam iniciar naquele ano um programa de andebol feminino para crianças e que devia expor a minha ideia, através de uma carta. Uma semana depois recebemos um convite para participar em um encontro de andebol a nível nacional, que iria acontecer um mês depois.

Aceitou o convite?

Só tinhas as minhas meninas-atletas, mas aceitei. Por que não experimentar? Treinamos em um campo de futebol de terra batida, improvisamos bolas … Um mês depois lá estávamos nós em Paço d´Arcos. É um marco na nossa história, nunca o esqueceremos. Foi muito difícil convencer os pais a deixá-las dormir fora de casa. Igualmente marcante foi o golo solitário que marcaram nos três dias do torneio, no último jogo. É claro que ficamos em último lugar, mas elas saíram de lá felizes, com a bancada toda a aplaudi-las, o que as fez esquecer os momentos difíceis do torneio. Elas eram diferentes a vários níveis e, por causa disso, também excluídas. Eram excluídas por causa do bairro em que viviam, da cor da pele, das condições socioeconómicas! Ir ao torneio e marcar um golo foi, por isso, uma vitória.

Comentários