Summit Liderança Feminina: Oradora Teresa Almeida quer quebrar tabus em torno do corpo da mulher

A cidade da Praia acolhe hoje e amanhã, 18, o Summit Liderança Feminina promovido pela plataforma Womenise.it. A designer e investigadora Teresa Almeida é uma das oradoras convidadas e fará amanhã parte do painel “Sou a dona do meu corpo – vencendo os medos e as dúvidas”.
créditos: SAPO

Teresa Almeida é portuguesa mas é uma “cidadã do mundo”. Desde 2003 que não vive em Portugal. Fez o mestrado nos Estados Unidos, Nova Iorque, onde também ficou a trabalhar durante um ano.

Desde aí que concorre a empregos pelo mundo. Já passou pela Malásia, Singapura, Inglaterra e agora está a caminho da Suécia, a capital Estocolmo.

Na sua formação começou pelo teatro e pela cenografia. “Trabalhei em produção cultural na parte dos novos media e de vídeo. O meu mestrado foi mais ligado ao design e à tecnologia e agora o que estive a fazer em Inglaterra foi o doutoramento que foi mais uma vez voltado para a mistura entre o design e a tecnologia. Vai tudo parar às partes interativas, à arte, o design, exposição. Agora trabalho mais a nível académico, investigação”, conta em entrevista ao SAPO.

Gosta de trabalho criativo e de inovação. “O meu trabalho é sempre a pensar no futuro e no que posso criar, desenhar, que tenha no fundo um impacto não só a nível académico mas também de que forma posso transformar esse trabalho académico num produto que seja útil a pessoas que tenham menos acesso às coisas”, explica.

Teresa Almeida, premiada pela “UN Women Empower Champion for Change 2016/17”, tem trabalhado nos últimos anos com um foco feminista, pensando na capacitação de mulheres e meninas.

“Desenho acessórios ou vestuário, peças para o corpo da mulher, para situações diversas. O meu trabalho de mestrado, por exemplo, era um vestido que insuflava para andar no metro, ou seja, em situações públicas onde há falta de espaço ou quando alguém aproxima-se demasiado (invadindo a esfera privada). Pensar em como é que se pode fazer, de uma maneira discreta, a que a outra pessoa que está a invadir o nosso espaço pessoal se afaste. Foi uma crítica, não era bem um produto, mas acabei por mostrar em várias exposições, foi um trabalho mais artístico”, lembra.

Uma app para conhecer melhor a vagina

A investigadora ficou conhecida pelo recente trabalho de doutoramento, projeto Labella, que consiste numa aplicação móvel que ajuda as mulheres a desmistificar e a conhecer melhor o seu corpo e o órgão genital. “Começou por ser um trabalho à volta da incontinência urinária que afeta muitas mulher, mas também muitos homens, e que a maior parte das pessoas desconhece”.

“Em Inglaterra há um enfermeiro especializado que vai às aulas nas escolas com estudantes de 13/ 14 anos e ensina as meninas a usarem o espelho para olharem para a vulva para perceberem melhor o seu corpo. As meninas lá são incentivadas a conhecerem o corpo dessa maneira”, diz.

Baseando nesse “costume” do país, Teresa Almeida pensou em usar a tecnologia para aumentar esse conhecimento e tentar quebrar o tabu. “Já que toda a gente usa um telemóvel e à partida usa cuecas, pensei combinar acessórios diários e que ninguém sai de casa sem, para fazer algo crítico ao mesmo tempo com algum humor que torna as pessoas mais descontraídas e tornando mais fácil dizer as palavras. Por exemplo a vagina, que é um termo biológico, é uma palavra que ainda muita gente não consegue dizer porque tem vergonha.”.

Com a aplicação, a ideia é que o telemóvel funcione como um espelho. À app juntam-se umas cuecas que, quando vestidas, acionam no ecrã uma ilustração onde a mulher verá várias partes do órgão sexual às quais estarão associados dados e informações.

O objetivo da investigadora é agora transformar o projeto de doutoramento num produto acessível ao mercado e para isso está a concorrer a um fundo de financiamento.

Na sua participação no Summit sobre Liderança Feminina irá contar um pouco do seu percurso, falar dos seus trabalhos voltados para a capacitação de mulheres e meninas e promete proximidade e interação.

“Trouxe vários materiais. Estou a pensar mostrar tudo o que tenho para as pessoas poderem tocar, modificar, recortar. Penso pôr tudo na mesa, quem quiser está à vontade para mexer. No fundo para que não estejam só sentadas a olhar e ouvir mas fazer com que as pessoas estejam à vontade para conversar e interagir. Esses materiais são catalisadores para quebrar o tabu e tornar a conversa mais fácil e acessível”.

Na cidade da Praia desde quinta-feira, diz estar “extremamente contente”. “Já conheci algumas participantes e sei que vou aprender imenso nestes dois dias. Somos todas de áreas diferentes mas todas nós temos o mesmo objetivo que é empoderar as mulheres de alguma forma”.

O Summit arrancou esta sexta-feira, 17, na capital e prossegue até amanhã com a participação de mais de uma dezena de oradoras entre as quais Sandra Correia, Jael Monteiro, Cindy Monteiro, Yolanda Tati, Cláudia Rodrigues, Arlinda Peixoto e Lúcia Passos.

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