O desespero das mulheres rohingyas violadas por soldados birmaneses

Para alimentar o seu filho bebé, Ayamar Bagon, uma muçulmana rohingya da Birmânia, tem de mendigar pelas ruas. O marido deixou-a ao saber que quatro soldados birmaneses a violaram durante a gravidez.
créditos: AFP PHOTO/Christophe ARCHAMBAULT

Esta é apenas uma das dezenas de mulheres que afirmam terem sido violentadas pelas forças de segurança nacionais durante uma operação militar lançada em outubro, no oeste do país, em represália pelos ataques aos postos fronteiriços.

Apelidada de "política de terror" pela ONU, essa intervenção motivou a fuga de milhares de rohingyas para o vizinho Bangladesh.

Pela primeira vez desde a operação, a imprensa internacional teve acesso a essa remota região do norte do estado de Rajin durante uma viagem organizada pelo governo.

"Violaram-me no nono mês de gravidez. Viram que eu estava grávida, mas isso não os impediu", conta Ayamar Bagon, enquanto brinca com a filha, na aldeia de Kyar Gaung Taung.

"O meu marido recriminou-me por não ter impedido a violação. Por isso, casou-se com outra mulher e, agora, vive noutra povoação", acrescentou.

Hasinnar Baygon, de 20 anos, mãe de dois filhos, também sofreu a rejeição do marido após ser violentada por três soldados em dezembro. Levaram-na para uma cabana e violaram-na à vez. Estavam de uniforme e armados. "Via-se claramente que eram soldados", aponta.

Todos os homens fugiram com medo de represálias, deixando mulheres, crianças e idosos para trás nas aldeias.

"Segundo o meu marido, eu sou culpada por não ter fugido", diz, desesperada.

A ONU estima que centenas de pessoas tenham morrido nesses meses e no que pode ter sido o episódio mais sangrento da longa perseguição aos muçulmanos rohingyas no país.

A Birmânia olha para os rohingyas como estrangeiros e apátridas, apesar de alguns deles viverem no território há várias gerações.

A violação como arma de guerra

Para além das violações, os sobreviventes que fugiram para o Bangladesh denunciam torturas, assassinatos e o incêndio nas suas povoações.

O Exército e o governo birmanês dirigido pela ex-dissidente e Prémio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi rejeitam as acusações, mas o país opôs-se ao envio de uma missão de investigação da ONU ao lugar.

"Foram abertas investigações sobre as acusações de assassinato. De violação também", afirma o chefe dos guardas fronteiriços do cantão de Maungdaw, San Lwin.

Os rohingyas de Kyar Gaung Taung contam que apresentaram denúncias de três dos 15 casos de violação de que têm conhecimento, mas, segundo eles, nada foi feito.

Para evitar serem rejeitadas, "algumas mulheres não querem entrar na Justiça", garante um morador, que pediu para não ser identificado.

Há diveros anos que as Organizações Não-Governamentais (ONG) da defesa dos direitos humanos denunciam o uso da violação como arma de guerra por parte do Exército birmanês.

Em 2012, correram rumores de que os muçulmanos violentaram mulheres budistas, o que gerou sangrentos confrontos. Mais de 120 mil rohingyas fugiram. Desde então, vivem em acampamentos.

As rohingyas que sofreram abusos dão por certo que não se fará justiça. Ayamar Bagon resigna-se: "nem sei quem eles são. Como é que os vou denunciar?".

Comentários