Jamira Dias: “O grupo Mon na Roda abriu-me os horizontes”

Conheça o percurso de Jamira Dias, uma bailarina em cadeira de rodas que através da dança conseguiu dar um novo rumo à sua história de vida e falou sobre a sua experiência no primeiro TEDx Praia.

Bailarina em cadeira de rodas

créditos: CM

Um fatídico acidente aos 10 anos de idade, mudou para sempre a vida de Jamira Dias. Foi preciso que 16 anos se passassem sobre essa data, para que a jovem encontra-se um novo sentido para a vida nas fileiras do grupo Mon na “Roda”.

Natural da ilha das montanhas, mais concretamente de Paul, Jamira estudou até os 10 anos na sua ilha natal.

Foi no dia 25 de novembro de 1995, um sábado, como bem se recorda, que Jamira que brincava com uma esferovite numa rua de Mindelo, foi atropelada. “Ainda tentei subir para cima de uma pedra, mas foi tarde demais”, recorda.

Foi levada para o hospital Baptista de Sousa por um vizinho que era taxista. Ao início nem entendeu bem, o que aconteceu, muito menos que lhe tinham amputado as pernas. Teve uma infeção e a 4 de dezembro, foi evacuada para Portugal, para onde seguiu acompanhada pela mãe.

Foi só em Lisboa, que quando lhe retiraram os pensos e curativos, que a pequena Jamira compreendeu o que lhe tinha acontecido. “Na altura, a dor era tanta que nem liguei ao que estava realmente a acontecer”.

Foi transferida para o Hospital Dona Estefania e seguiu-se uma sessão intensa de tratamentos, até que quase um ano e meio depois Jamira começou a usar uma prótese, o que, diz, foi o mais difícil. “É algo que se encaixa no teu corpo mas que nem sabes à partida que existia”.

Para usar a prótese, fez fisioterapia. “Dava dois, três passos e ficava cansada”.

Em março de 1997, Jamira e a mãe regressaram a Cabo Verde, mas no verão do mesmo ano a mãe da jovem decidiu que o melhor para a filha e a família seria viver em Portugal.

E foi assim aos 13 anos que regressou aos bancos da escola, para a quarta classe, desta vez no Barreiro, do outro lado do rio Tejo.

Jamira concluiu o secundário e depois conseguiu uma bolsa para fazer uma licenciatura em Recursos Humanos, no Instituto Politécnico de Setúbal (IPS).

Contudo a vida pregou-lhe uma nova partida. Já no final do curso em 2009, os médicos disseram-lhe que precisava de ser operada novamente. “As minhas cicatrizes na perna estava mal feitas, sangrava, às vezes, fui adiando mas em 2009 já não podia escapar”.

“Quando somos crianças, não temos noção, a aceitação é maior. Não temos noção do que é o preconceito, de nada”, explica e acrescenta que o pós-operatório foi muito complicado.

No pós-operatório, de julho a dezembro, e ainda sem prótese, conta que não quis sair de casa. “Ficava sozinha em casa, comecei a entrar em depressão. Se alguém me fosse visitar, pedia à minha mãe que dissesse que estava a dormir. Não queria que me vissem sem a prótese. Tinha muito preconceito dentro de mim”.

Foi quando a família decidiu que Jamira deveria passar o Natal em Cabo Verde. Ficou em São Vicente até fevereiro de 2010 e quando regressou a Portugal, já tinha tomado uma decisão – queria viver em Cabo Verde.

“Depois da última operação, fiquei a pensar que queria mudar a minha vida”. Diz que a família não acreditou na decisão que estava a tomar.

Esteve um ano em São Vicente. Foi a várias entrevistas de trabalho, mas diz que nunca foi aceite. Sem trabalho, resolveu que precisava novamente de mudar. Tinha um primo na cidade da Praia e decidiu vir para a capital.

Pediu, literalmente, boleia de barco numa agência e um dia depois de ter chegado na capital conheceu o grupo “Mon na Roda”.

Mudança de rumo

E foi a partir do momento que chegou à cidade da Praia que a sua vida deu uma volta de 360 graus. Passou um mês a ver o grupo Mon na Roda” a ensaiar até que ganhou coragem para se juntar ao colectivo.

“Eu e o Flávio éramos os últimos a ensaiar”, recorda, numa altura em que ainda não tinha vencido por completo o seu receio.

Sem hesitar afirma: “O grupo Mon na Roda abriu-me os horizontes e deu-me uma outra qualidade de vida”.

Em setembro de 2011, ingressou numa nova licenciatura em Economia e Gestão, na Universidade Jean Piaget, resta-lhe agora entregar a monografia. E de seguida, conseguiu um emprego.

“Nada acontece por acaso. Algo melhor sempre estava à minha espera na Praia”.

Desde que entrou para o grupo, Jamira diz que “sente que evoluiu como pessoa”. “Nunca mais vou sentir pena de mim mesma. Os meus amigos brincam e dizem que mudei de água para vinho”.

A bailarina em cadeira de rodas acredita que a dança é a melhor forma de dizer ao mundo que não tem limitações na vida.

Cada vez que entra um novo elemento no grupo “Mon na Roda”, a jovem tenta ensinar-lhes como ultrapassar os receios iniciais, que lhe são tão familiares.

Não faz muitos planos e prefere viver um dia de cada vez. Hoje, com 32 anos, mora sozinha, trabalha e dança. Já praticou desporto junto do Comité Paralímpico de Cabo Verde, mas diz que infelizmente não é possível conciliar tudo.

Apesar de alguns obstáculos que encontra no dia-a-dia: a falta de acessos, os cuidados de saúde, muitas vezes, precários, Jamira nunca se arrependeu da sua decisão de vir para Cabo Verde, muito pelo contrário.

“Cabo Verde em pouco tempo deu-me algo que Portugal nunca me deu”, conclui.

Inspirar os outros

Foi convidada para ser uma dos oito oradores da primeira edição do TEDx Praia. Com a sua participação pretendeu partilhar as ideias do grupo “Mon na Roda” e mostrar “o que são capazes de fazer através da dança”.

“Queremos dar a conhecer uma nova perspetiva de vida através da dança”.

Apesar de já ter alguma experiência com palestras motivacionais, Jamira confessou que desta vez ia ser diferente, até porque a apresentação ia ser transmitida na internet para o mundo fora.

A primeira edição do TEDx Praia aconteceu no sábado, a 18 de março, no Cine Praia, na capital.

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