Mirtó Veríssimo: “A ingressão no mundo vegan não foi uma questão de moda”

Victoria Veríssimo mudou a sua alimentação em 2012 mas, mais do que isso, adotou uma filosofia de vida que segue até hoje. É vegana.
créditos: cedida

“Sempre que comia carne sentia-me mal disposta e passava um dia inteiro sem fazer a digestão completa. Sentia-me sempre como se estivesse ‘entupida’, com a comida no estômago”.

Era assim que se sentia Mirtó, como Victoria Veríssimo é mais conhecia, em tempos idos, quando ainda a carne e outros derivados animais faziam parte do seu cardápio.

Tem 45 anos, é formada em Gestão de Empresas e tem como filosofia de vida o veganismo que, acima de tudo, defende a proteção dos animais e o fim de todas as práticas de exploração e crueldade sobre os mesmos.

“Desde a minha infância já não tínhamos muito o hábito de comer carne vermelha em casa. Era mais carne branca e peixe porque tanto o meu pai como a minha mãe não gostavam”, recorda.

Há 17 anos, em Portugal, já havia tentado junto do Instituto Macrobiótico em Lisboa seguir o veganismo mas com o regresso a Cabo Verde, conta que, na altura, não foi possível dar seguimento. “Não tinha acesso assim tão fácil à internet e às informações todas necessárias”.

Foi em 2012, depois de algumas conversas com um amigo vegan, que Mirtó começou a interessar-se verdadeiramente pelo tema e a fazer pesquisas nesse sentido. “Comecei mais seriamente a pesquisar e não apenas dizer ‘não como isto ou aquilo’ e depois correr o risco de ficar com deficiências a nível de vitaminas e proteínas. As carnes vermelhas já não existiam, não deixavam assim tanta falta, depois foram as carnes brancas como o frango e o peru”, diz.

A seguir pôs de lado os laticínios como o leite, o iogurte, a manteiga. O queijo foi o último a sair do plano alimentar de Mirtó, já em 2016, e um dos alimentos que mais a custou deixar de lado já que, como diz, “adora queijo”.

Mirtó deixa claro que a “ingressão no mundo vegan não foi uma questão de moda”. A saúde e o seu bem-estar foram sempre as suas motivações, às quais, à medida que foi investigando, foi acrescentando a “consciência de uma realidade cruel em relação aos animais que a maior parte das pessoas não tem”.

“Com as pesquisas, comecei a ver muitos documentários nomeadamente sobre essa industrialização da carne e derivados e quase que uma imposição ao consumo desses alimentos. Comecei a ver várias torturas e formas horríveis, desde que esses animais nascem até estarem no prato do ser humano. E descobri que é possível viver sem esses produtos”, acrescenta.

“ … o meu corpo é o meu templo”

Os veganos são ainda uma minoria, pelo menos na sociedade cabo-verdiana, e não são poucas as vezes que, socialmente, Mirtó é confrontada com comentários, questões e até algum ‘gozo’ em torna da sua opção alimentar. “Eu sou ‘a esquisita’, sou ‘aquela que só come saladas’, que ‘só come arroz’. Oiço vários comentários, pessoas que querem saber, que acham interessante, outras que não sabem e sentem-se curiosas. Perguntam-me muitas vezes ‘mas não tens vontade de vez em quando de fazer um bife, um churrasco?’. Começam a dizer ‘vais ficar doente’, ‘tens falta de proteína’, e torna-se motivo de conversa”, conta.

E ainda há um grupo que “simplesmente não percebe a opção”. “Não é sequer por estupidez, apenas não conseguem perceber por uma questão social, de educação, de vivência, de tradição e cultura.”

Hoje assegura que sente-se muito melhor e come à base de feijão. A aveia é o “super alimento” que tem sempre em casa. “É peça fundamental”, acrescenta.

Diz que foi um processo de “conhecimento” e a melhor coisa que aconteceu é ter agora toda a cadeia alimentar, a nível das leguminosas, cereais, vegetais e frutas, em dia. “Eu consumo todos os dias ou todas as semanas, coisa que eu não fazia antes”, exemplifica.

Mirtó não encara a sua alimentação diária com demasiado preciosismo nem grandes exageros procurando saber quais os alimentos que deve combinar ou, tão pouco, as dosagens certas. “Isso já é muita informação para mim. Como normalmente, vou substituindo por exemplo o ovo pela linhaça ou pela chia, e descobri realmente vários alimentos que antes não faziam parte”.

Em Cabo Verde, não encontra grandes dificuldades em manter a alimentação que deseja – especialmente em termos de legumes e frutas – embora ainda falte determinados produtos ou existam alguns com preços acima da média.

“O mercado está cheio de fruta, os vegetais verdes que são os tais que têm a proteína, o ferro. Em termos de feijões também, temos os vários tipos desde o branco, o preto, a ‘sapatinha’, grão de bico …  de tudo. Mas há determinados produtos, que são completos, como a levedura nutricional que é rica em vitamina B12, ou as sementes por exemplo de sésamo ou chia, que já são mais caros ou o tofu que é caríssimo”, refere.

Mirtó Veríssimo tem uma filha de 9 anos, que educa dentro desta filosofia. “O que faço com a minha filha é explicar-lhe o porquê de termos esta alimentação em casa. Já mostrei-lhe alguns documentários, não os muito agressivos, mas expliquei a questão ambiental, do desmatamento das florestas para ocupação de espaço para animais, etc. O que tento fazer é educar, não impor, porque acho que se fizer essa imposição desperta mais a atenção e tem o efeito contrário”, explica.

Diz que tem “pavor em ficar doente” daí ter baseado a sua mudança a nível alimentar em pesquisas e sobretudo em substituições e compensações, deixando de consumir um alimento mas incluindo novos no cardápio, com os semelhantes valores nutricionais. Consultou também um nutricionista e compara regularmente com análises clínicas.

“Costumo dizer que o meu corpo é o meu templo então vou tratar deste templo. Vou tentando evitar ter vários problemas de saúde como a tensão alta, colesterol elevado, diabetes, que advêm muitas vezes de uma alimentação à base de produtos animais, principalmente a gordura animal, que depois fica no nosso organismo”, aclara.

Mas ser vegan ultrapassa o mundo alimentar. “O mundo vegan é maior do que aquilo que eu faço porque não tenho ainda tudo o que preciso para viver. Desde produtos de limpeza a produtos de higiene por exemplo. É toda uma consciência que eu tenho mas que não consigo muitas vezes seguir pelo mercado. Por exemplo, agora preciso de leite de magnésia para fazer o desodorizante”, diz.

CriArtista

Mirtó Veríssimo não é “muito dada às redes sociais” mas criou, há cerca de ano e meio, no Facebook, uma página, a “CriArtista”, que surgiu da necessidade de partilha generalizada com amigos, e não só, dos seus pratos que cria no dia a dia.

“Tenho um grupo de amigos, que sabia que eu tinha essa alimentação, a quem mandava fotografias sempre que fazia algo diferente”. Perguntavam muitas vezes como é que fazia determinado prato e ela ia fazendo “copy/paste” para este ou aquele amigo.

“Achei que podia ser interessante ter algo do género. Primeiro pensei num blogue mas depois concluí que implicaria mais tempo e mais dedicação enquanto que o Facebook não, já é mais rápido. Tiro as fotografias, coloco a receita e os ingredientes e já está”, conta.

Mirtó é movida pela vontade de mostrar às pessoas o que come não com o intuito de exibir mas para inspirá-las a tentarem fazer também a receita e mostrar que sim, é possível. “São produtos que compro aqui e estão em Cabo Verde. Até agora a única coisa que veio de fora foi a levedura nutricional”, complementa.

Diz que a “CriArtista” tem uma aceitação razoável. Algumas receitas têm muito alcance e recebe também muitas mensagens privadas com questões e dúvidas.

Aos que lerem esta entrevista ou visitarem a página, deixa uma mensagem final: que façam uma pesquisa própria, vissem documentários, fizessem perguntas aos médicos e não a rejeitarem à primeira. “Que seguissem mesmo pelo caminho da pesquisa e do conhecimento, de troca de situações e vivências, antes de se decidirem porque realmente muda tudo. Muda a maneira de estar, de comportamento, de relacionar com os outros, com os animais, com o meio ambiente. Eu não sou radical e foi um processo gradual mas consciente e essa consciência faz com que tenhas cada vez mais certeza e consigas continuar”.

Mirtó está certa de que o seu caminho no mundo vegan ainda não chegou ao fim e é para continuar. “Há várias fases e o que eu quero é conseguir atingir essas fases. Infelizmente aqui o mercado é limitado e vou então aproveitando o que aqui encontro … que já é muita coisa”, sorri.

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