O tabú de se ficar velho (para homens)

Todos os estudos demográficos mostram um progressivo aumento da quantidade de velhos nos países desenvolvidos. Um artigo com a visão do médico urologista Nuno Monteiro Pereira.

Nos últimos cem anos, em Portugal, praticamente duplicou o valor da expectativa de vida masculina. Esse desenvolvimento deve-se principalmente à melhoria das condições de higiene, à redução da taxa de mortalidade, a terapêuticas mais eficazes, a uma melhor prevenção da doença aguda com a idade.

Com cada vez maior número de homens a alcançarem uma idade avançada, os problemas de saúde dos homens idosos, assim como os sociais e psicológicos, assumem um papel cada vez mais importante na prática clínica e na investigação médica.

É certo que envelhecer é um processo fisiológico normal. Ficar-se velho não é uma doença. Mas, no envelhecimento, o corpo sofre uma série de modificações morfológicas e funcionais, caracterizadas essencialmente por uma tendência em reduzir a eficácia de todos os órgãos e sistemas. E assim, um corpo envelhecido é, para muitas pessoas, percecionado como um corpo deteriorado, estragado, socialmente inútil.

Muitos países desenvolvidos, ou que pretendem ser desenvolvidos, têm uma prática em que a idade é um atributo sem valor social. Pode falar-se numa verdadeira descriminação social. Esta perda de valor é ainda mais acentuada quando a idade está associada com outros fatores de vulnerabilidade, como a pobreza, a baixa educação, a solidão, ser pensionista, ser mulher.

A resignação dos próprios idosos, que aceitam muitas vezes sem reação a desvalorização de que são alvo, é preocupante e tem sérias consequências para a sua própria saúde física e mental. A depressão, a falta de motivação, a perda de autoestima, o desinteresse pelo mundo que os rodeia, o isolamento, são co-factores muito importantes, que vão contribuir para uma menor expectativa de vida e, acima de tudo, para uma menor qualidade de vida. Especialmente no caso dos homens, já que muitas vezes as mulheres se refugiam nas suas melhores habilitações sociais e afetivas.

A Medicina moderna não pode demitir-se destes aspectos, não pode esquecer que para além de curar, tem de cuidar. O seu desafio é também promover uma velhice com qualidade, considerar que ela é a última oportunidade para uma desenvolvimento individual digno.

Por Nuno Monteiro Pereira, Urologista no Hospital Lusíadas Lisboa

artigo do parceiro: Nuno de Noronha

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