Estudo: Jovens cabo-verdianos conhecem, mas usam pouco os métodos contracetivos

Os dados constam de um estudo hoje divulgado na cidade da Praia sobre a contraceção de adolescentes e jovens no país feito junto de 1.093 inquiridos de cinco ilhas e 17 concelhos.

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Mais de metade dos adolescentes e jovens cabo-verdianos inicia a vida sexual antes dos 16 anos e apesar de revelarem conhecimento de métodos contracetivos tradicionais as percentagens de uso são baixas.

Os dados constam de um estudo hoje divulgado na cidade da Praia sobre a contraceção de adolescentes e jovens no país feito junto de 1.093 inquiridos de cinco ilhas e 17 concelhos.

O estudo, promovido pela Associação de Proteção da Família (VERDEFAM), em parceria com o Governo e com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP), pretendeu aferir o grau de conhecimento dos adolescentes e jovens cabo-verdianos relativamente aos métodos contracetivos, bem como a relação entre o conhecimento e o uso.

O estudo revela que os métodos contracetivos mais conhecidos e usados são o preservativo masculino (99% conhece e 48% usa) e a pílula (86% conhece e 13% usa) e que, dos inquiridos que afirmaram ter conhecimento de métodos contracetivos mais de um quarto (29%) optou por não os usar na primeira relação.

"Há uma clara discrepância entre o conhecimento e o comportamento. Embora haja relativo conhecimento, a utilização é ainda muito aquém do conhecimento que se tem", considerou a coordenadora do estudo Eurídice Monteiro.

Ana Domingos, uma das responsáveis pelo estudo, destacou o facto de um quinto dos jovens ter a primeira relação sexual antes dos 14 anos, sendo que os rapazes iniciam mais cedo do que as raparigas.

De acordo com os dados, 78% dos jovens inquiridos no estudo já tinha iniciado a sua vida sexual, sendo que 57,1% teve a primeira relação antes dos 16 anos.

A larga maioria (57,6%) não aponta qualquer motivo para o não uso de contraceção, enquanto 10% afirmou "não ter pensado nisso na hora" e 7% disse querer engravidar.

Os inquiridos revelaram ainda motivos relacionados com o medo da infertilidade futura ou malformações dos filhos associadas ao uso da pílula, problemas de saúde, motivos religiosos ou diminuição do prazer.

A perceção do parceiro foi outro dos motivos apontados pelos inquiridos, com 17,3% a citar a oposição do marido/companheiro ou namorado como motivo para evitar a contraceção.

Segundo Ana Domingos, nas entrevistas feitas no âmbito do estudo, muitas jovens revelaram receio de que a exigência de uso de preservativo pudesse dar ideia de falta de confiança ao parceiro.

"O que é que um homem vai pensar de uma mulher que traz consigo um preservativo", foi outra das ideias veiculadas nas entrevistas.

Os utilizadores do preservativo masculino têm idades entre os 15 e os 18 anos, são solteiros, e vivem nas ilhas de Santiago, Santo Antão e São Vicente, enquanto os que recorrem à pílula são maiores de 19 anos das ilhas de Santo Antão, Fogo e São Vicente em união de facto ou separados.

Os jovens obtêm a informação sobre sexualidade e contraceção sobretudo através dos meios de comunicação, nomeadamente a televisão (61%), e da escola (49%), abordando pouco o tema da sexualidade com a família e mesmo entre casais.

"Nas relações de intimidade, família, parceiros, há uma fraca abordagem a nível dos métodos. Na família há pouca abertura e muitas vezes os pais não tem a perceção de que os filhos iniciaram a vida sexual", assinalou Eurídice Monteiro.

A responsável defende, por isso, a necessidade de promover a formação nas famílias e nas comunidades.

O estudo revela ainda que 15,9% das raparigas inquiridas já tinham engravidado, 9,6% uma vez e 6,2% duas vezes, sendo que 52,2% engravidou sem querer e 32,2% de forma intencional.

Entre os rapazes, 21,2% afirmaram ter engravidado as companheiras, sendo que 29,2% afirmou tê-lo feito intencionalmente.

Ana Domingos assinalou também o facto de os dados do estudo revelarem que os jovens cabo-verdianos não entendem os comportamentos sexuais de risco, associando-os à frequência das relações, as posições sexuais e à higiene do local.

Segundo o estudo, 30% dos inquiridos afirmou ter feito sexo sob o efeito de drogas e álcool, 71% adiantou nunca ter consultado um ginecologista ou urologista e 31% disse ter mais de dois parceiros no último ano, sendo que estas práticas não são valorizadas como comportamentos de risco.

Conclui-se ainda que os serviços de saúde são procurados quase exclusivamente para a obtenção de contraceção e não para conseguir informação relacionada com a sexualidade e o planeamento familiar.

Perante este cenário, o estudo recomenda um maior investimento na articulação entre as áreas da educação e da saúde, a formação de grupos para a melhoria da transmissão das informações sobre sexualidade nas escolas, bem como a melhoria dos locais de atendimento para garantir a privacidade dos jovens e adolescentes.

"A perceção de que a privacidade não é garantida acaba por afastá-los do acesso aos locais que prestam serviços e fornecem informações", considerou Eurídice Monteiro.

A coordenadora do estudo defendeu também o uso das novas tecnologias para partilhar informações, esclarecer e "desconstruir certas crenças e estereótipos" associados à sexualidade e à contraceção.

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